segunda-feira, 26 de março de 2012

Test drive para o amor


Existem muitas maneiras de duas pessoas apaixonadas se conhecerem melhor: irem juntas ao cinema, sairem para um chope, passearem de bicicleta, fazerem festa com os amigos, motel. É a programação clichê da maioria dos namorados. Mas será que isso basta para conhecer alguém? Um homem e uma mulher podem tomar quatrocentos litros de chope juntos e continuarem sabendo muito pouco um do outro. Uma coisa é saber o que ele pensa, e isso pode ser feito numa mesa de bar. Outra é saber como ele é, e isso requer mais intimidade, e não é de sexo que se está falando. É de convivência 24 horas.

Como descobrir, antes de casar ou morar junto, se ele ronca, se ela demora no banho, se ele usa fio dental, se ela acorda de mau humor, se ele sabe lidar com o inesperado, se ela é mesmo independente? Pegando a estrada.

Viajar juntos é o grande teste para um casal. Passar alguns dias acampando, ou num hotel, numa casa alugada, não importa onde, desde que seja um território neutro onde se possa repartir os bons e maus momentos, descobrir as manias de cada um, os hábitos que foram herdados dos pais, a verdadeira face oculta, que dificilmente se revela numa festa de sábado.

Ela sempre aparecia cheirosa nos encontros. Perfumaria. Viajando juntos, você descobre que ela é adepta do banho de gato, uns respingos e deu. Dorme com uma baba no cabelo, que é pra não ressecar. Usa a mesma camiseta cinco dias seguidos e sua escova de dentes completou três aninhos em agosto.

Ele sempre falou que honestidade era sua maior virtude. Nota-se. Na estrada, tentou subornar dois guardas. Chegando na casa que alugaram, ele deu um jeito de emperrar uma janela para pedir um abatimento no preço. Ao fazerem as primeiras compras no mercadinho da cidade, você o flagrou escondendo uma barra de chocolate no casaco e passando pelo caixa sem pagar. Um exemplo de dignidade.

É claro que, na maioria das vezes, uma viagem confirma que a pessoa que elegemos é mesmo maravilhosa, e novas qualidades são descobertas. Mas é conveniente não reservar as surpresas para a lua-de-mel. Pequenas viagens de fins-de-semana, ao longo do relacionamento, podem ser muito reveladoras. Você já sabe que ele gosta de filmes de ação e que ela prefere comer peixe, mas os dois só saberão dos detalhes da personalidade de cada um se criarem uma pequena rotina doméstica, fora da vida social. Isso é brincar de casinha? Que seja. Ainda é o melhor teste para saber se o amor resistirá a uma vida de verdade.

Martha Medeiros

quinta-feira, 22 de março de 2012

Não Vá Embora

E no meio de tanta gente eu encontrei você
Entre tanta gente chata sem nenhuma graça,
Você veio
E eu que pensava que não ia me apaixonar
Nunca mais na vida

Eu podia ficar feio só perdido
Mas com você eu fico muito mais bonito
Mais esperto
E podia estar tudo agora dando errado pra mim
Mas com você dá certo

Refrão:
Por isso não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais
Por isso não vá, não vá embora
Por isso não me deixe nunca nunca mais

Eu podia estar sofrendo, caído por aí
Mas com você eu fico muito mais feliz
Mais desperto
Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero, não quero

 Marisa Monte

quarta-feira, 7 de março de 2012

Soprano


Tom:  Am
                  Intro: (Am F C G/B) 2x

Am   G/B   C      F       Am                G
Será frio, será ausência, será assim ou só lembrança
Am   G/B       C       F         Am                  G
E se for, e se força não há mais pra recantar nossa dança
     F        Em        F                   G
Teu chão, meu céu, teu colo pra tudo que eu juro 
      F                   Em
Me desfaço em versos no papel 
      F                          G
Não abrindo a porta eu pulo o muro 
G       F          C     G7
Pulo da pedra mais alta

C        F  G            C    F G
Chego voando pra te visitar
C             F  G               C    F G
Talvez por engano eu venha te beijar
C           F  G               C    F G
Mudo meu plano pra não te machucar
C             F G                        C    F G
To aqui soprando a chama que me faz brilhar

INTRO
Am   G/B   C      F       
Será paz, será paciência 
Am                    G
será assim ou só esperança
Am   G/B             C      F  
E se a dor e se adormecer demais 
Am                   G
Pra levantar mais criança
        F                    Em
Nossa festa ainda vai começar
        F                    G
Nossa peça era a peça que faltava 
         F                     Em
Se me inspira pra eu te respirar
    F              G
Em poesia que não acaba
G         F        C     G7
Acabo de pular da pedra

C        F  G            C    F G
Chego voando pra te visitar
C             F  G               C    F G
Talvez por engano eu venha te beijar
C           F  G               C    F G
Mudo meu plano pra não te machucar
C             F G                     C    F G
To aqui soprando o que alumia meu cantar
                    C    F G                       C
o que alumia meu cantar...    o que alumia meu cantar

O Teatro Mágico

Oração


Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe essa oração

A Banda Mais Bonita da Cidade

Boa Pessoa

Se você dormiu bem
se você comeu bem
se você quer o bem
de uma boa pessoa;

Nessas manhãs de frio
quando a geada pinta a grama
e o azul do céu, é de uma beleza que caçoa;

Quando o nada te faria tirar o pijama
não fosse o vento que vai lá fora
é a voz do teu amor que chama agora

E você vem ...

Laraiá, laraiá, laraiá.

A Banda Mais Bonita da Cidade

Aos Garotos de Aluguel

Ela me chama quando quer, eu penso se eu vou lá
Me envolve num ardil qualquer querendo me enganar
Essa situação não quer chegar a um final
Eu sou garoto de aluguel, mas não vão me comprar
Eu vou te dar o teu prazer, mas com amor é mais caro
Com amor é mais caro
O meu amor é mais caro
Diz quanto você pode pagar.
E diz se você pode pagar.
A Banda Mais Bonita da Cidade

Todo sentimento...

"Todo sentimento precisa de um passado pra existir
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio
Com alguém que a pouco era quase um estranho
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..."


Benjamin Constant

Essência da canção

Saudade,
Saudade simples, em sua essência mais pura...
Um amargo na garganta, um parto no peito, o silêncio do vazio.
A lua em obséquio, ilumina ternamente minha alma,
adormecendo-a a espera das luzes e sons da manhã.
Do calor revigorante do sol.
Do sorriso vivido do infinito azul.
Das doces sinfonias da vida,
E o mais importante, que não pode esmaecer-se,
a linda canção que vive dentro de cada um,
em particular, a que vive em mim,
a essência simples, de minha forma mais pura.


Gisely Amorim

sexta-feira, 2 de março de 2012

A Metamorfose dos Insetos

Notas de um observador:
Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega-se de maestra-los.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, in(f)vertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

(O Teatro Mágico)

Só de sacanagem

Meu coração está aos pulos. 
Quantas vezes minha esperança será posta a prova? 
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar...
Malas, cuecas que vão entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós.
Pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz.
Mas não é certo que a mentira dos nossos brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro, a luz é simples regado ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam. 
Não roubará, devolva o lápis do coleguinha, esse apontador não é seu minha filha. Ao invés disso tanta coisa nojenta e torpe, tenho tido que escutar .
Até hábeas-corpus preventivo coisa da qual nunca tinha ouvido falar e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste.
Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. 
Pois é, e se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear. Mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem.
Dirão: Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba e eu vou dizer: não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez, eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambal.
Dirão: É inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal e eu direi: 
Não admito, minha esperança é imortal e eu repito, ouviram, imortal. 
Sei que não da pra mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar pra mudar o final.



(Elisa Lucinda)

História da Águia


A águia é a ave que possui maior longevidade da espécie. Chega a viver setenta anos.
AguiaMas para chegar a essa idade, aos quarenta anos ela tem que tomar uma séria e difícil decisão. Aos quarenta ela está com as unhas compridas e flexíveis, não consegue mais agarrar suas presas das quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo se curva. Apontando contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar já é tão difícil!
Então a águia só tem duas alternativas: Morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar cento e cinquenta dias.
Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão onde ela não necessite voar. Então, após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede até conseguir arrancá-lo.
Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E só cinco meses depois sai o formoso vôo de renovação e para viver então mais trinta anos.
Em nossa vida, muitas vezes, temos de nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação. Para que continuemos a voar um vôo de vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes, velhos hábitos que nos causam dor.
Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o resultado valioso que a renovação sempre nos traz.

Texto extraído do site vida.net

Non Animal

Eu a vejo quase todas as manhãs. 
Não é exatamente bonita. 
Aliás ela é de uma feiura estranha como se carregasse uma boniteza espalhada em si, nos gestos e não nos traços exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada perenemente pelo seu cão. 

Um pastor alemão com cara de bom companheiro. E o é. Eu vejo. Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela, brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também, essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca de não-solidão com esse cachorro específico; gosta dele, ri: Não Duque, assim não, deixa o moço, Duque, me espere. Não vá na minha frente assim, cuidado com o carro, menino. Ele a olha como quem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes que só vendo. Eu vejo. 

Ela é camelô; nos encontramos no elevador e eu: - Vocês se divertem tanto, é tão bonito. - É, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estava trabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Deixei minhas bugigangas (ela vende coisas que querem imitar jóias antigas) por não sei quanto tempo e fiquei agachada na calçada na Avenida Nossa Senhora, só namorando ele. Decidimos que ele viveria comigo. Naturalmente. Tudo aconteceu "naturalmente", ela frisou, como se quisesse dissipar de mim qualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmo elevador, ela com seu carrinho de balangandãs, eu e Duque. O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do último elevador nosso: - Tenho certeza que ele é de câncer. É muito sensível. Só falta falar. Né Duque? ... ele não é lindo? Eu disse: - Lindíssimo. E você que signo é? - Ah, sou capricórnio mas com ascendente em câncer, combina sim. 

Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela oferecia de propósito e distraídamente a imordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele. Quase não entendo de cães. 

- Você tem medo... ô não ofenda ele; Duque entende pensamentos e não gostou do que você pensou. Jamais me morderia, jamais me trairia. Né Duque? 
Senti o pensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos. - Tchau, bom trabalho. Tchau Duque. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Depois pensei nos mistérios da astrologia e perdi o fio do meu pensamento. 
Ao final da tarde avistei pela janela Duque e Angela indo ver o crepúsculo na praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos, sob a noite estrelada; ela com fitas de vídeo penduradas ao braço; sempre conversando com ele. 

Tenho inveja de Angela. 
O animal que eu quero não mora comigo, não almoça mais comigo, não brinca mais, não me telefona, não me adivinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendo dengo, nossos signos parecem não mais combinar. O animal que quero, pensa demais e por isso não passeia mais comigo. E o pior: Não me lambe mais.



(Elisa Lucinda)

Frases Reunidas

"Feche a porta, mude o disco,
limpe a casa, sacuda a poeira. 
Deixe de ser quem era, 
e se transforme em quem é."


(Martha Medeiros)